sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Estranhões & Bizarrocos II
















Jácome era um inventor de coisas impossíveis: tinta invisível, formigas mecânicas, pássaros a vapor, sapatos voadores, aparelhos de produzir espirros .


Um mundo inteiramente novo começou a nascer na sua oficina: eram lagartixas com todas as cores do arco--íris, camelos de cinco bossas, camaleões cantarores, de pele luminosa, gatos que pareciam anjos, com pequenas asas de seda plantadas no meio das costas. Um dia inventou um animal que não se assemelhava a mais nenhum. Chamou-lhe Estranhão. No dia seguinte criou um segundo, igualmente estranho e chamou-lhe Bizarroco


 A partir de um relógio de pulso, de um botão de camisa, de algumas molas da cama e de um lençol, Jácome tinha inventado alguns dias antes, um aparelho atravessador de paredes.Montado nele, atravessou as paredes, como se estas fossem feitas de água e voltou tranquilamente para a sua oficina. As crianças, os estranhões, os bizarrocos, os pássaros a vapor, as lagartixas com pele de arco-íris, enfim todos os bichos que ele havia inventado, receberam-no em festa. Uma festa que durou três dias. O atravessador de paredes foi a única coisa útil que Jácome inventou. Tudo o resto nunca serviu para nada. Mas é muito importante.


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Biblioteca sobre Patas

Ilustração de Henrique Cayatte


À semelhança de um certo grão-vizir que vivia na Pérsia, também os Hipopómatos transportam sempre consigo os livros de que não conseguem separar-se. Não foi tarefa fácil carregá-los todos até à Lua, mas tivemos a preciosa ajuda de quatrocentos camelos.
Semanalmente partilhamos aqui um desses livros.





Há muitos anos viveu na Pérsia um grão-vizir - nome dado naquela época aos chefes dos governos-, que gostava imenso de ler. Sempre que tinha de viajar ele levava consigo quatrocentos camelos, carregados de livros, e treinados para caminhar em ordem alfabética. O primeiro camelo chamava-se Aba, o segundo Baal, e assim por diante, até ao último, que atendia pelo nome de Zuzá. Era uma verdadeira biblioteca sobre patas.


Assim começa Sábios como Camelos, uma das dez histórias que integram o inesquecível livro que José Eduardo Agalusa  escreveu em 2000, Estranhões & Bizarrocos [Estórias para adormecer anjos]. As ilustrações são de Henrique Cayatte e mereceram o Prémio Nacional de Ilustração. O livro foi ainda distinguido com o Grande  Prémio Gulbenkian de Literatura Para Crianças.

São muitas as crianças que desconhecem este livro? Impossível, pensarão todos aqueles que o lêem e relêem, sem nunca se cansarem. Para espanto dos Hipopómatos, só numa semana encontrámos cinco escolas onde os Estranhões & Bizarrocos não só nunca tinham entrado, como também nunca ninguém ouvira falar deles. É um livro maravilhoso, com uma dose de imaginação ilimitada,  onde o mundo é, muitas vezes, virado ao contrário, mas  tudo acaba fazendo sentido... Este é um livro que todas as crianças deveriam conhecer e o que os adultos não deveriam dispensar. Esta é a nossa escolha da semana.